25 julho 2006

A Angola é aqui

Eu já estava com vontade de conhecer a Angola. Principalmente depois de passar por Moçambique e me dar conta de como estamos enraizados neste continente (o que fica ainda mais claro quando se vai em países de colonização inglesa ou alemã—nada é mais característico do que o caos deixado pelos portugueses). Então eu andava com muita vontade de conhecer Angola, de entender a zona instaurada, de ver um pós-guerra recente e tentar apreender algo, de ver as pessoas, de falar “tá fish”. Os planos eram de uma viagem em breve mas, antes disso, me peguei surpreendida, e eis a constatação: vim para o lugar mais Angola fora de Angola, assim sem saber.

Após 3 dias seguidos tentando me comunicar em inglês com o encanador, ele me perguntou se eu era inglesa ou alemã, pois havia algo de “estranho” no meu inglês. Sorri e disse brasileira, sabendo que a reação já seria boa (aquela aproximada básica futebol/samba/novelas/ex-colônia). Ele olhou com cara de surpresa e perguntou por que então eu não estava falando português. Ora, bolas, como eu ia saber que ele falava português? Mas a dica já estava me sendo dada desde que cheguei aqui, eu é que ainda não tinha percebido. Os colonos foram alemães; o regime seguinte, sul-africano; mas todo namibiense que se preze fala português. A equação não fecha? Pois é, por isso digo vixemaria como se aprende neste lugar—e lá vou eu estudar um pouco mais de história. Resumindo, a maior parte dos meus amigos daqui nasceram em campos de refugiados e tem um pai ou uma mãe angolana. As lutas pela independência em ambos os países e a guerra civil pós-independência em Angola foram paralelas e totalmente relacionadas. Assim como são relacionadas com o que aconteceu em Moçambique, Zimbábue, África do Sul, Guerra Fria, Mundo. As histórias do mundo todas convergindo numa história só, como, afinal, se há de esperar.

O que, no entanto, me deixa com cara de incógnita é que não lembro de ter tido tanto disso na escola... apenas fatos aqui ou acolá, mas tão superficialmente...

~ por que cargas d´água negligenciamos tanto da História dos outros “Mundos Contemporâneos”?

~ por que somos tão desinteressados pelo que acontece aqui—aqui onde temos muito mais em comum, nossas raízes, nossas lutas, nossa pobreza, nossa cor, nossos problemas e nossas soluções?

~ por que tantos dos meus amigos me escreveram recentemente dizendo que nem sabiam que existia um país chamado Namíbia?

~ por que eu há relativamente pouco tempo seria incapaz de dizer qual a capital deste País ou ainda em que região da África fica?

~ por que me surpreendo tanto aprendendo um pouco da história que, convenhamos, é até óbvia quando consideramos (ainda que de forma simples) as grandes forças de poder econômicas e políticas?

~ por que eu passo três dias tentando explicar algo em inglês para o encanador (algo que eu não saberia explicar nem em português) sem antes disso estabelecer um diálogo mínimo que me possibilite saber qual é uma de suas línguas maternas?




~ ~ ~ ~ Ai existencialismo maldito.

3 comentários:

Thata disse...

menina, tenho que dizer, este é um dos blogs mais impressionantes que já encontrei nesta vasta blogosfera. O conteúdo, a escrita e, principalmente, a força que você transmite, seu exemplo e sua coragem, são coisa de outro mundo! parabéns pela iniciativa de ir morar aí tão longe e obrigada por partilhar isso com a gente!
Passo sempre por aqui!
Beijão!!

ligia troy disse...

Oi lindinha, sei exatamente do vc esta falando, só fui começar a compreender o que significa a África depois de viver em Portugal. Eu também tenho um grande sonho de conhecer Angola. Por favor, antes de ires me avisa, pois é bem capaz de eu pegar um avião e ir contigo. Tô falando sério mesmo.

Te espero.

bjs, saudades, setembro.

ligia troy disse...
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